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terça-feira, 25 de maio de 2010

Aquele dos Treze

De pés descalços eu corria pela rua, pulava corda, jogava queimada e me atrevia no futebol com meus primos. Era inverno de 98, e eu acompanhei a transformação de rua acinzentada pela poluição pra mais um lar dos torcedores canarinhos. Os preparativos ocuparam bastante do meu tempo, afinal, qual criança não gosta de pintar, colar e recortar? Ali, eu comecei a entender o que é torcer.

Torcer ia além de parar na frente da televisão e gritar quando a bola atingia em cheio a rede. Eu podia sentir, havia alguma coisa ali. Um quê de brisa no balanço e bolo de chocolate. É, a Copa tinha sabor de bolo de chocolate.

Mas dentro desse universo de euforia, eu conheci aquele que marcaria a minha vida. Toda vez que o Galvão gritava “Vai que é tuuuuua Taffarel” eu sentia um aperto. Não porque o Galvão berrava na minha frente, mas porque esse Taffarel devia ser alguém importante. Ao som dos berros do Galvão, das expressões contidas e precavidas dos meus vizinhos, eu senti que torcer também é sofrer.

Ao longo dos jogos o Taffarel não me decepcionou. Ele era um cara diferente, era o único de luvas do time. Eu ouvia o pessoal chingar e reclamar dos colegas dele, mas do Taffarel, nunca ouvi um ai. “Esse Taffarel devia ser cheio de amigos”, era a única coisa que eu podia concluir.

No último jogo, senti a voz do Galvão murchar ao pronunciar Taffarel. Depois disso, ninguém mais quis brincar. Eu não entendia aquilo, o Taffarel não tinha muitos amigos? Disseram que a culpa era dos franceses, mas ninguém sabia ao certo o que havia acontecido.

Comecei a entender superficialmente o que havia acontecido após cinco anos, quando pude defender o gol da escola em que eu estudava num campeonato interescolar. Diferente da seleção de Taffarel, ninguém esperava que meu time ganhasse, e nós não decepcionamos as expectativas. Após os treze gols tomados, senti na pele o significado da frase “Vocês vão ter que me engolir”, vindo da boca do meu professor de educação física. Aos treze anos eu entendi, vida de goleiro não é fácil.

Aline Ramos*

*Depois do jogo, Aline Ramos desistiu de ser goleira. Hoje só torce pelo Rogério Ceni.

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